ETAPAS 2004

ONDE TUDO COMEÇOU

Em 2004, Marcelo Serra dá os primeiros passos que transformariam o trekking em Minas Gerais.

Matéria revista Encontro Rural outubro de  2004

PÉ ANTE PÉ

Caminhadas em meio à natureza atraem cada vez mais pessoas e ganham até versões terapêuticas

 


Enfrentar o frio das montanhas, rumo ao pico, sendo acompanhado pela presença generosa de uma lua cheia. Parece um privilégio para poucos desbravadores, mas aventuras como essas são mais comuns do que se imagina. Os adeptos do trekking — como é chamada a caminhada em meio à natureza — legião cada vez maior de pessoas, relatam o prazer de descobrir paisagens inéditas, que só se revelam àqueles que se aventuram a cruzar regiões a pé, além da sensação de privilégio de ir a lugares a que poucos chegam.

Quem já fez trekking diz que a atividade é “revitalizadora”. Tem a vantagem de permitir o contato íntimo com a natureza e de ser acessível a pessoas de todas as idades. O que a maioria dos praticantes faz é caminhar por trilhas, cujo objetivo maior é a integração com o meio ambiente, a contemplação das belezas naturais e — por que não — o autoconhecimento.

De todos os esportes, é na caminhada que se consegue chegar mais longe. Mas o interessante é que o objetivo não é a chegada, mas sim o caminho, a trilha, a possibilidade de aproximação com o meio ambiente e consigo mesmo, avalia o guia de trekking Hélio Primo, da agência de ecoturismo Primotur.

Cada um se comporta de uma maneira durante o percurso, mas ninguém sai ileso. “Uns caminham em silêncio, outros conversam sem parar. No fundo, todos a desfrutam muito, e as mudanças não demoram muito a aparecer”, diz.

Segundo ele, muitas pessoas passam a respeitar mais o ambiente natural e a buscar uma vida mais equilibrada. “O contato com a natureza é essencial para o bem-estar físico e mental.”

Por ter descoberto quanto as caminhadas podem provocar mudanças nas pessoas, surgiu até uma vertente terapêutica do trekking. Nessas experiências, a caminhada é feita em silêncio, permitindo maior introspecção e conexão com o ambiente ao redor.

Outro trekking terapêutico é chamado de ecoterapia. A caminhada é intercalada por exercícios de artes corporais chinesas, como o tai chi chuan, e práticas de yoga — alongamentos, exercícios de respiração. “Nesse caso, além de caminhar, o participante trabalha o campo energético do corpo e aprende novas formas de relaxamento”, conta a educadora.

A ecoterapia, aliada às “caminhadas de superação”, que são os trekkings mais longos e puxados, com mais conforto e exigem mais preparo físico. Por tudo isso, são um exercício para a mente e para o corpo. “A caminhada endorfina, libera hormônios que trazem bem-estar e ajudam a reduzir o estresse”, diz Marcus.

A paixão pela prática já rendeu até um inusitado enduro a pé, que se faz nos moldes da Fórmula 1, numa adaptação das regras dos enduros de moto aqui em Minas.

Há quatro anos foi criado o Circuito Mineiro de Trekking, organizado pela agência Minas Trekking. São ao todo 12 etapas, que acontecem ao longo do ano, que acontecem ao longo do ano. A prova acontece com a participação de várias equipes, que reúnem ao todo mais de 700 pessoas. “O enduro a pé, ou trekking de regularidade, é uma competição que pode ser praticada por qualquer um, independente do preparo físico”, afirma Marcelo Serra, um dos organizadores da competição.

As provas consistem em realizar um percurso pré-determinado pelas trilhas, superando obstáculos naturais, como estradas de terra, rios e montanhas, com o tempo mais próximo possível do ideal estabelecido. Em cada etapa, o roteiro é criado de maneira que o passeio seja sempre por uma bela cachoeira bonita, por uma bela paisagem, alternando mata fechada, campo aberto e, pelo menos uns 500 metros de caminhada dentro de um rio”, conta Marcelo. A prova, afirma, não é de velocidade, e sim de orientação e regularidade, pois são fornecidas velocidades médias e distâncias entre referências que constam na planilha, possibilitando à equipe calcular o tempo exato de passagem em cada local. Em cada etapa, as equipes acumulam pontos. Ao final das 12 etapas, descobre-se quem é o melhor.

Apesar do caráter competitivo, há espaços dedicados à contemplação da natureza. Pontos estratégicos são escolhidos para que os participantes possam apreciar o percurso. Quem experimenta, não larga mais.